sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

quando eu senti
o meu corpo entendendo
quase que me dissolvi
nas minhas próprias águas.

vezes lagos límpidos, vezes tormentas
mas sempre esse desejo de mergulhar.

e enquanto sou mar
você é céu.
enquanto eu riacho
você venta nos véus
das nuvens que estão sempre lá,
sempre passando pareidolias,
cirrus, cumulus, nimbus;
mas nunca são as mesmas.

apenas uma fina linha no horizonte não nos deixa fundir. 
e meu corpo estremece e não deixa mentir - é isso mesmo. 

então mudo de cor, baixo a maré, cesso correntes;
sou o que está lá embaixo, bem no fundo, também.

mas quando evaporo, eu não vejo.
apenas sinto nos poros o ensejo
de ir chover do lado de lá,
e o teu vento me leva. 

então decidi que só iria embora
depois de contar todas as tuas pintas - estrelas de você.  

um céu de novas e supernovas todos os dias.

domingo, 4 de setembro de 2022

a cabeça em chamas,
o espelho clama.

muitos chamados.

chama, chama, acalma e dói
essa chama da vela acesa.
ela inflama, enfeitiça e implora:
é hora de descer as cartas sobre a mesa

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

olha quanta coisa aconteceu até aqui 

minha nossa, olha quanta coisa se quebrou

e quanta coisa aconteceu

e quanta coisa que deixou 

e quanta coisa veio a ser 

e quanta coisa se acabou

olha como cresceu

olha como mudou 

acabou de acontecer

aconteceu e acabou

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Moviola

imagina imaginar imagem
fazer lindos filmes
vídeos artes imagens sons,
experimental de experiência tal.

imaginar então que escreve
assim como fuma, come, bebe
natural e roteineira,
corrida, corriqueira, mas
por vezes, a palavra chega feito nota: 
mínima e semibreve.

e, por vezes, fermentada, 
fica feito fermata:
ecoando através dos tempos.

mas sempre me vem
imagem 
e som também
de paisagem, de visagem
de mensagem, de bagagem.

imagino e sempre sonho.
e dou passagem pra imaginar muito 
mesmo estando só de passagem.

e deixo tudo passar, passiva
imersa em imensidões incontroláveis. 

que horror é esse abismo tentador.
ter que saltar sem saber,
de se matar sem morrer. 

tantas possibilidades e disparidades,
disparates e contrastes,
nas rotações do próprio eixo. 

domingo, 30 de maio de 2021

I

só pensava nisso
enquanto eu cozinhava o feijão apressada
medo de chegar na reunião atrasada
mesmo que seja ali na tela,
no cômodo do lado 

pensava também enquanto eu corria
pegar roupa do varal
os sapatos que ainda estavam molhados
os brinquedos espalhados no quintal 

eu só conseguia pensar 
em quanto tempo eu preciso 
e quando é que vou ter o tempo que preciso
e quando é que o tempo preciso vai chegar  

II

só conseguia pensar
em quanto tempo tenho para escrever,
para criar, para ser 

quanto tempo eu
que sem câmera na mão
mas ideia na cabeça 
eu que

quero escrever 

e filmar também

quanto tempo vou ter 
para escrever, criar
filmar e ser 

quando é que vai dar tempo?


III

existem tantas coisas que AINDA precisam ser ditas
tantas histórias mal contadas 
tantas ainda a serem vividas 

não porque eu mas porque nós
não só por mim 

mas por todas nós

as que vieram antes de mim
e as que saíram de mim também 

IV

confesso que eu também sou mais viva
mais aqui do que lá
muito mais viva pensando nisso aqui
do que aquele lá 

se sem tempo estou escrevendo
imagina como vai ser no tempo que virá 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Verso do universo do lado inverso

existe um imenso lugar
escondido em qualquer brecha
que feito caixa se abre,
se dobra, e se fecha.

um lugar não-lugar
indetectável e invisível
indecifrável e imprevisível

onde brotam as ideias ipomeias
flores astrais em conexões neurais
eurecas, insights e epifanias
visões, previsões, televisões e melancolias

são cinemas, dilemas, teoremas e poemas
são ciências, consciências, inconsistências e onisciências 

tudo da de alta relevância ou
sem alguma importância
sobre as grandes pequenas coisas
e sobre as pequenas coisas tão imensas 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

na minha horta chove ácido II

madruguei e desenterrei
esse verso já compostado
esquecido, deteriorado
mas que nunca deixou de dizer

sobre essa horta que floresce, frutifica
alimenta mas também danifica
entranhas com estranha acidez
de estar viva

então, da própria podridão
surge a gama de cores
texturas, efeitos e sabores
do Reino 

e no Reino alucina,
esse papel doce e azedo dessa sina
de deslumbrar e esquecer
toda e qualquer acidez dolorida
ou amargor acelerado
que muitas vezes tá embutido,
sem chance de ser evitado, porque
na minha Horta
chove ácido.


domingo, 4 de agosto de 2019

não queria ter que gastar minhas palavras em propaganda de qualquer coisa.
queria ficar aqui na poesia. 


ainda bem que palavra não tem fim.
há quem fale muito
quem goste de falar
expressar
aos quatro ventos
pra quem ta próximo e quem tá distante
pra presentes e virtuosos
ignorantes, intelectuais 
presenciais e virtuais

e há quem saiba escrever mesmo
assim como nos livros
que nunca deixaram de ser impressos
mesmo com tantos blogs, PDFs, e-books, e-readers, et ceteras.
ainda bem.

mas eu não.
escrevo para ninguém ler
tomara que ninguém leia
escrevo porque preciso mesmo desaguar
a esmo em algum lugar.

a palavra me soa como um conselho
um consolo
uma esperança
e um travesseiro

domingo, 19 de maio de 2019

perdoa o desconforto com a vida.
nem mesmo o vasto léxico proporcionado explica.
nem mesmo o quarto copo dessa bebida
vão me fazer soltar os ombros hoje.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

caldo

vou dando corda, furando onda.
vou andando na prancha.
vou me sentindo um gota.

fico submersa no fundo escuro e sujo do cais.
flutuo nas mais límpidas águas de maretórios astrais.

imersa no imenso eu.
submersa no imenso mar.
eu deito e fico até subir ao céu.

mas basta um pequeno vento pra um grande movimento.
uma coisinha aqui que é um tsunami lá.

corrente, me joga pra fora do profundo.

então caí na real com tudo:
cotovelos e joelhos ralados na areia.