memórias do rio de janeiro III

se tem uma expressão para eu sintetizar essa viagem, essa é 'deja vus'.

antes mesmo de chegar na cidade, entendi que eu realmente deveria conhecê-la. passando por barra mansa, aquele sentimento de que estive ali. só que quando eu era minha mãe. quando eu era minha mãe criança, morando lá, com meus vários irmãos, minha família tão unida quanto pobre. eram as mesmas cores que eu imaginei quando minha mãe me contou sobre essa época. eu quase pude me ver ali, sendo minha mãe. suspirei. dormi.

naquele trenzinho de turista, encontrei uma família pela segunda vez aqui, pois a primeira foi em algum lugar do inconsciente. já havia falado com eles. o pai, alto, tinha uma feição meio árabe, mas brasileiro. a mãe, uma negra meio clara como eu, com um turbante vermelho, um vestido lindo. e um casal de crianças bonitas, vestidas com roupas confortáveis, com aquela curiosidade infante muito viva nos olhos. eu quis carregar um deles, pois já fiz isso em algum lugar.

depois, estava lá com a mulherada bebendo em botafogo. de lá, fomos para a praça tiradentes. de repente, a gente começou a correr, para pegar um ônibus, mas era mais porque já estávamos meio bêbadas. eu corria, até que passamos por uma pracinha e eu olhei pro lado e caralho! to mesmo no rio de janeiro! dali onde parei, que perspectiva. via o cristo redentor iluminado, acima dos postes, bem no meio das construções da rua. e daí, tudo se desenrolou exatamente como num sonho que tive, há bastante tempo. fiquei parada tentando me localizar enquanto as meninas corriam. eu falava isso. caralho! to mesmo no rio de janeiro! e olhava para o cristo. tentei tirar uma foto, para mandar pra minha mãe, mas na foto aparecia só uma cruzinha branca, borrada. depois corri alcançar as meninas. exatamente como sonhei.

na praia da barra da tijuca, estava sozinha. quando eu sentei na areia, já senti que estava ali. mas até aí tudo bem, eu, cabra do mar, vivo sonhando que estou contemplando os domínios de minha mãe Iemanjá, ouvindo o que dizem os ventos de minha mãe Iansã. fiquei bastante tempo lá, numa brisa. deixei minhas coisas com um casal, entrei no mar, fiquei mais um tempo, e voltei. brinquei com a cachorra do casal, estela. o nome deles eu não sei. me levantei pra ir embora, e eis que surge um moço que eu já conhecia. só que ele era de fortaleza e morava no rio há uns 10 anos. sujeito simples, simpático, disse que mora na rocinha trabalha com vários bicos. eu desconfio de qualquer homem desconhecido, mas eu senti que conhecia ele. ele veio chamar pra fumar um baseado. a gente fumou, falamos de assuntos corriqueiros, agradecemos aquilo tudo que estava diante dos nossos olhos. e então uma sequência que eu já havia visto e ouvido: "você tá aqui faz hora né?" "eu vi você sentada ali" "vi você no mar também". daí tive um desconforto, tava me paquerando e eu não gosto. mas não foi nada escroto. falei que já estava bem chapada do beque, e ele guardou a bagana. tentei explicar que no litoral eu chapo diferente. mas, como ele morou no litoral a vida toda, não entendeu o que eu quis dizer. falou que era muito feliz ali. comprou um chá gelado,"toma, é pra você."e foi-se.

por fim, no domingo chuvoso. estava deitada com ele. tudo estava roxinho, tocava yo la tengo. tudo era sensorial, tudo era feliz. torrãzinho de açúcar mágico faz dessas. mas esse deja vu, eu vou guardar só pra mim. até que a minha memória o esqueça... ou não.

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