Autorretrato e Metalinguística

quando me olho no espelho,
me encaro por alguns segundos,
olho no fundo dos olhos
como quem procura uma resposta

no fundo dos olhos pretos
pretos em pele parda,
dita parda mas é preta

ah, os olhos,
la no fundo
das olheiras
e da alma
me parecem pretos
tão pretos que parece
que não tem nada lá dentro.

noutros tempos
quis ter olhos verdes, azuis
amarelos, violetas,
ou até castanhos,
nos tons da Terra.
mas hoje não...

talvez até sejam castanhos,
mas não enxergo tão bem.
enxergo preto.
sem nada lá dentro.

vácuo.

esse par de olhos e de olheiras
são fruto dessa vida cansada
e contemplativa.


Cecilia falou do seu retrato
e me identifico desde sempre;

eu não tinha esse rosto de hoje
assim calmo, assim magro, assim triste.
[...]

é.

inclusive faz até mais sentido agora do que antes.

volta e meia me perco nesse monte de nada que está lá dentro
que já não sei se é um mar de nada ou miscelânea de tudo que tá lá dentro…

lá dentro…
desses olhos…
tão pretos…

mas pelo menos não perdi minha face
nos espelhos e poças da vida,
querida Cecília.

sempre encontro meu rosto sempre à margem,
e somente à margem
da loucura.

stellium em câncer

sol, lua, marte, mercúrio maria bethânia que perfeição