Quando a Psicologia da Composição Não Funciona

por Robert Doisneau


Durante dias eu cheguei e sentei e esperei a folha branca me prescrever o sonho. Me incitar o verso. Durante noites, na verdade. Como era de costume. Era muito mais fácil, mais espontâneo, e por isso mais bobo que isso daqui ainda. Durante noites eu vinha para a casa com a cabeça cada vez mais pesada; quanto mais a gente estuda e quanto mais se comunica, maiores ficam as perguntas. Mais complexas. 

Assim como essa coisa de ser adulto, né. Quanto tempo faz que não toco uns acordes sem grande pretensão, numa dessas tardes tranquilas que têm o céu cheio das cores. Quanto tempo que não abro a minha caixa de materiais de desenho, que tanto amo. Há tempos.

Eu sempre tento evitar falar do tempo nesses meus textos, mas parece inevitável. Esse assunto me persegue. E penso que é pela falta de domínio sobre ele que nós temos. Nós nem sabemos o que é direito. A gente simplesmente colocou forma no tempo. Mas o que é um relógio quando, às vezes, ele pode nem existir? 

E a melancolia que é pensar sobre qualquer coisa e, parada no tempo, acabar pensando nele mesmo. Tempo, essa pauta do andamento da vida, implacável.

E a cabeça pesa. E me faz olhar para cima, parece que para atestar minha pequenez. E me fazer pensar nesse turbilhão de mudanças. E quando a cabeça dá para pensar, não pára. E depois que imerge a gente em qualquer tipo de coisa, cobra ainda uma conclusão sobre isso tudo, de quebra. E comigo, com um detalhe a mais: travando a minha comunicação.

Aquela sensação de que a gente já foi melhor nisso, ou naquilo, é essa sensação que eu tenho quando a cabeça pesa, porque se ela pesa, é porque já não consigo esvaziá-la como antes. Consigo no máximo aliviar a carga tapeando com muita jorgera e alguns recursos recreativos. Misturados com alegria, e quiçá aquela mesma melancolia ali de cima.

E depois não sei se é isso tudo ou se é o peso da cabeça que me faz travar assim. A folha branca já não me prescreve o sonho como antes; ela me cobra quem eu sou e o que eu quero fazer. E pode até ser que eu saiba alguma coisa ou outra, mas eu ainda não sei dizer. Desconecto porque to tentando montar o sentido da minha vida - e nunca foi tão difícil. E, apesar de todo esse suor e sangue já dados – muito mais sangue, diga-se de passagem -  travo de novo ao pensar no que está por vir, porque eu me sinto no meio do caminho. E o verso, poxa, sempre acaba ficando pra outra hora...

Alguém me salve de mim. 

Ah. E meus sentimentos. Psicologia da Composição, do João Cabral de Melo Neto, sempre foi, é, e ainda será, um dos meus poemas favoritos.

stellium em câncer

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