Os trabalhos são carnívoros

fecham-se as cortinas vermelhas e o tempo,
e meus expectadores saíram sem nenhum apego.
isso já esperava, é do final feliz que a plateia gosta.
fecha o tempo, fecho o zíper, fechamos a porta.

fico desesperada,
é o fim dessa temporada.

meus ombros estão cada vez mais caídos
meus vestidos, cada vez mais vazios.
e não faz sentido mostrar-lhes os dentes
e as olheiras se fixaram meio que... para sempre.
- fazem parte do meu rosto antes mesmo que os olhos.

e eu cantarolo baixinho trechinhos daquelas playlists melancólicas
e desejo quase que o tempo todo uma dose de bebida alcoolica.

então organizo qualquer coisa querendo organizar as minhas ideias
já que meu próximo espetáculo está bem longe da estreia
e não vai ter financiamento, nem patrocínio,
e assim o final feliz fica aquém do meu raciocínio.

e, a fim de enfeitar esse contemporâneo tão perverso,
escolho a dedo cada música, cada cor e cada verso
para serem consumidos acompanhados de cigarros
e bom uísque, em caso de perfeição.

mas esse não é o caso,
nem nunca foi.

da transmutação do tudo em nada ou do nada em tudo

quanto mais ando mais quero andar quanto mais sei mais quero saber mas quanto menos quero melhor estou quanto menos almejo ...