Poema das Duas Faces

 A Sesta - Almada Negreiros


Quando nascemos, um anjo entediado
desses que vivem queimando formigas
nos disse: Vão, crianças, envelhecer cedo na vida

e na hora janeira de nascer,
tivemos as almas siamesas cortadas
por uma estrela cadente;
nascemos de mães diferentes,
tivemos as vidas separadas.

A face que olha para o Passado
admirou os mesmos retratos,
encontrou os mesmos vacilos,
tropeçou nos mesmos empecilhos.

A face que olha para o Futuro
compreende que os caminhos são duros,
prevê os mesmos obstáculos,
desvia dos mesmos tentáculos.

...então, enquanto sozinhos,
paralelos,
aprendemos a enxergar música,
beber filmes,
comer palavras,
pegar cores.

... e em certa altura do caminho,
retomamos o elo,
trocamos as visões,
a embriaguez,
os gostos
e sensações.

E, usando só de abraço e olhar,
percebemos um no outro os mesmos valores,
e anseios e medos e cigarros,
a mesma necessidade de vento,
os mesmos espectros psicodélicos,
a mesma compreensão de mundo e de sonhos,
e nos reconhecemos na mesma velhice precoce forçada.

Brindamos.

da transmutação do tudo em nada ou do nada em tudo

quanto mais ando mais quero andar quanto mais sei mais quero saber mas quanto menos quero melhor estou quanto menos almejo ...