Coisa de Quem É Insone e Empírico

Puberdade - Edvard Munch

Cá estou em nostalgia, mais uma vez sentada em frente a um computador, num horário em que quase todos estão dormindo, com a casa num extremo silêncio, igualzinho a alguns anos atrás. Estou em 2012 num mundo à parte. Só eu posso entender esses minutos e a maneira que eles se apresentam para mim. Esse calor que já passei antes, com essa sensação pós filme de madrugada, não tem ninguém para conversar sobre!, e a falta que fez um cigarro, e tudo mais... Escutando uma música que, mesmo indiretamente (se é que isso é possível), conheço desde sempre, por causa de alguma das minhas irmãs, ou meus pais, ou parentes, ou qualquer alguém que ouviu. Tendo os mesmos anseios antigos com nova roupagem. 

         Me dei conta de que o mês passou só hoje, dia 25. Passei por quase todo tipo de coisa nesses vinte e cinco dias. Mesmo que eu não vire sempre a minha ampulheta branca, o tempo se afunila e escorre sem parar... Quase que havia me esquecido de como é bom viajar, conhecer gente nova, ares novos, coisas novas. Mas isso nunca me mudou. Só me acrescenta. As pessoas que eu amava antes, agora eu amo muito mais, e reaprendo, e revejo, e escuto de novo, e por aí vai. A diferença é só a quantidade de café (que está maior) e que agora eu tenho um cachimbo. Do mais, só acrescenta.

         Pela primeira vez, fui demonstrar a minha frustração com a política, e isso na minha cidade mesmo, num protesto silencioso e literalmente fúnebre. Vi o prefeito ser cassado, e vi dessa vez, quase que uma certeza de que ele não vai voltar, e de que o meio há de melhorar, independente de protesto ou qualquer coisa assim, mas por um pequeno sinal de justiça. Visitei gente que estudou comigo, com neném novo e novas não tão novas, e visitei gente com câncer, situação totalmente nova, assim tão de perto. Saí tomar sorvete, comer doce, passear com minha sobrinha, e saí beber, fumar, dançar, beijar, e todo o resto, com alguns amigos. Percebi algumas amizades se fortalecendo com o tempo e a distância que se deram, e vi também algumas ficando mais fracas. Ao fim de tudo, fiquei muito feliz, muito triste e, mais do que tudo, muito perdida, mais uma vez. Mas não num mau sentido. É que tudo foi um choque. Mais um choque.

Nunca fui boa em expressar qualquer tipo de sentimento que se referisse a mim mesmo, independente de fases, crises, dilemas, e et ceteras as quais se está sujeito... Escrever sobre isso é um dos exercícios mais difíceis que arranjei pra fazer. Comecei com a premissa de que tenho que exercitar a escrita e buscar autoconhecimento. Independente do texto que for, quem leu uma vez, leu. Às vezes gostam, às vezes não, mas esse nem é o foco. Agora, se voltar a ler, o mesmo texto ou outro, há de perceber o tanto de “eu” e de “mundos” que tento retratar, muitas vezes não expressados da maneira desejada, mas que estão lá formatados e reunidos. Isso funciona como mais uma tentativa sintonização, sem fins lucrativos.

O agora só não é a mesma coisa que antes não só por uma questão lexical, mas também temporal. Tudo acontece aqui e agora. Então, agora o quarto não tem desenhos na parede e nem é branco, e sim cor de rosa, cor que menos gosto na vida. Agora tento explicitamente buscar o tal do eu, não sei nem aonde, e ainda tentando compreender o por quê. Agora tento ser uma figura harmônica, de corpo e de alma, mesmo que com o cabelo torto e com algumas tatuagens, algo que sempre quis fazer. Com tantas mudanças, o mês correu e eu nem vi, e não sei como vai ser daqui pra frente, não sei se vou dar conta de expandir tanto assim.

O mês correu e eu nem vi, pois tenho uma bela vista da janela, com muitas cores e formas. Vi um casal de maritacas tão bonitinho, vi o relógio da igreja, e agora vejo a Lua entre as nuvens, muito dourada, como se ela estivesse numa janela.  O mês correu e eu cresci.

stellium em câncer

sol, lua, marte, mercúrio maria bethânia que perfeição