Laje




dizem que agosto não tem gosto
mas eu,
eu de novo
degustei agosto no meu posto

meu posto, meu lugar favorito da casa
lugar onde nasceram as asas
não tem nada, não tem sacada
mas tem tudo

tem final de tarde sempre colorido
jabuticabeira do vizinho derrubando folhas

vê-se uma janela de banheiro
de uma casa de madeira velha
cheia de cremes e condicionadores

vê-se antenas, rádio e tevê
sinal, todos querem saber
todos querem assistir

lá em cima, vê-se também telhados
próximos e distantes
pequenos e gigantes

lá tem lua  e estrelas e nuvens passando por cima
formando círculos de luz sólida
norteadores da minha mente sórdida

tem nascer do sol atrás da fábrica
tem uma puta nostalgia ácida
que é doloridamente deliciosa

tem céu e mureta
pra olhar a cidade de ponta-cabeça
tem chaminé da churrasqueira
dos cigarros, as ponteiras

lembra as estórias de terror de quando criança
lembra os ventos da semana passada
risos, lamparina, varal improvisado e dança
não tem sacada, não tem nada
mas tem tudo

olha, vejo as primaveras do colégio
esse meu terraço improvisado
um privilégio











da transmutação do tudo em nada ou do nada em tudo

quanto mais ando mais quero andar quanto mais sei mais quero saber mas quanto menos quero melhor estou quanto menos almejo ...