Notas Insones IV

(A Lua - Tarsila do Amaral)


o meu eu tão ausente
querendo marcar presença
querendo dar sentença
pro que nem foi ainda

e o cortar do coração
vem por mim também.
que nesse sofrer com antecipação,
por aquilo que não convém,
enche o pote até aqui de mágoa
enche todo o brim de nódoa

chiado de vitrola,
ranger de portinhola.
que mundo é esse,
e que coisas são essas?

me encontro e me afogo na obsolência

e qualquer novo
soa como se já tivesse acontecido
fazendo-me dar o mesmo destino
e deixando para o meu relicário
um leve gosto de arrependimento

eu não aprendo mesmo
calejei também
e espero também
com aquele mesmo tipo de... fé
- se é que posso assim chamar

já que essa mesma fé
provém dos mesmos céus,
daqueles que marcam a transição,
a mudança de estação,
os meus espelhos d'água no chão...
eu não posso descartá-la.

e os dedos estão um pouco sujos
é o tal  do giz pastel
numa mão sem anel
que deixou mais definitivos
os meus traços
e contrastes
e atrasos
e desastres

da transmutação do tudo em nada ou do nada em tudo

quanto mais ando mais quero andar quanto mais sei mais quero saber mas quanto menos quero melhor estou quanto menos almejo ...