livramentos

me perco nas palavras bonitas
nas frases bem ditas
das linhas benditas
que são escritas
em livros de todos os tempos
logo, me perco no tempo
admirando a realidade
que só existe naquele calhamaço
e só naquele momento
que passei meus olhos por ali

depois, ficam os fragmentos
dentro da minha cabeça.
e por mais que eu esqueça
uma coisa ou outra,
eles conversam com a realidade daqui.

ler não é olhar, nem ouvir
nem assistir
mas é tamanho sentir
que por essas e outras
que sou livre
nos meus livros
pois me livro
da realidade daqui


fingidora soul

ainda que não seja poeta,
flerto desde sempre com a poesia,
olhando de soslaio para a filosofia,
invejando quando
o casamento delas acontece

ainda que não seja poeta,
que não saiba fazer trovas ou elegias,
entendo muito de nostalgias
por não evitar nunca
os sentimentos que se aproximam

ainda que tenha aprendido uma vez,
não sei escrever com métrica,
pois dispenso preceitos da estética,
mesmo que eles me seduzam
vez em quando

não sou poeta
pois tenho mais o que fazer;
roupas para lavar,
quilômetros para correr

ainda que não seja poeta
nasci com mente inquieta de poeta
um coração sincero de poeta
olhar inconformado de poeta
melancolia de poeta

Wunjo

sê paciente, sê calma
chora para adubar aos seus plantios
mas não muito,
seu Giramundo já te disse que não quer

sê perseverante, sê calma
ria para vibrar energias aos seus plantios
ainda que não muito
mas esquece um pouco os problemas se quiser

sê forte, sê calma
mira as luas para entender seus plantios
olha para os muitos
fluídos e convergências naturais que culminam nos seus plantios

who was I?
who am I?
what I want?
what I wanted?
Just need to remember

I'll stop trying to make difference
I'm not trying to make difference,
no way

I write poor things
But I don't like poor poetry
So I'm starting to remember

abriu um bar na rua de trás de casa
o novo role da cidade pra moçada
lá toca as mesmas músicas de outrora
mas eu me sinto velha de novo, fora de moda

Maria

quando te vi naquele dia
entendi que o tal Amor Maria
era tudo aquilo mesmo

tu, que viestes do outro lado do país
foi se aprumar logo onde tenho raiz
trazendo seu timbre doce
com esse seu 
sotaque pernambucano
cantando 
me cantando
e, não posso deixar de lado o clichê; encantando

tu, que olhou no fundo da minha alma
e compreendeu de primeira diversas coisas
como minha ânsia de ir além.
de andar por aí a fazer arte também.
podia ter chego antes ou depois
pois este meu coração leviano
que se apaixona feito os nativos piscianos
ainda que sozinho e descalço
já fez morada em outro abraço

testamentos I

esses dias
mergulhei no passado.
um empurrãozinho bastou,
já que sou cheia de
saudades e nostalgias.

há uns anos escrevi
o poema do se eu morresse amanhã,
dizendo que morreria tranquila e satisfeita
ainda que cheia de vontades e incertezas.

lembrei como pensava na dona Morte
e até a via como uma possível companheira,
já que vivia flertando com ela
pois tinha medo nenhum.

hoje percebi que
ainda que não me assuste,
é bem mais complicado morrer.
pois quanto mais tempo passa
mais difícil fica.

morrer compele uma série de sentires
que não são só os nossos.
impele um nó arrebentado
na rede que formamos.

então começo aqui meus testamentos
caso algo me aconteça.
caso algo me acometa
a luz de estrelas e cometas.

inda sujeita à roda da fortuna
essa cabra do mar de nascença
que tem o louco como arcano
agora, no sol escorpiano
tranquila, tenta uma transmutação

tristeza, minha tristeza
tamanha a minha falta de destreza
para comigo mesma...

queria que fosse mais simples
a ponto de poder te deixar 
esse recado ingênuo

você sabe quanto me é importante
e até mesmo querida

mas eu preciso de espaço.
do meu espaço.

Lacrimosa

já não quero mais vir escrever sobre a tristeza
mas cá estou novamente.

sei que sempre me dei bem com ela,
mas tá me intoxicando;
ela não me deixa quase nunca.

me pega desprevenida, 
nos piores ou melhores momentos.
depois de uma viagem incrível
de um reencontro com a família
de visitar amigos amados
de conhecer lugares novos
pessoas singulares
ou mesmo depois do almoço,
depois do maço,
ou do próprio amor.

tento encontrar 
de onde ela vem dessa vez
já que veio com tanta força
ainda que não seja muito difícil me deixar triste,
ainda que pareça que eu não fique triste nunca

tento entender o que preciso aprender dessa vez
mas ela vem confusa, 
com isso muito implícito.
me parece até uma estranha.

such a sad affair

I like to use songs
to describe my feelings
like to use their meanings
to speak the words I can't

looping

I am this sadness too
I am this loneliness too
I used to be afraid of this feelings
I used to be afraid of myself
so I started to write 
making this a kind of a tool
to cure my wounds and pains
to make me fool 
again
like... when I was five
(thank you for that, letrux) 

so I use cheap words, phrases, rhymes
cause my dreams are cheap too
and even so 
my dreams
are so far away from me
so hard to find
and this makes me sad 
makes me lonely
makes me feel scared of this feelings again

tamanha vontade 
de fazer tantas coisas
proporcionalmente igual 
ao tamanho dessa inércia
que me abraça tranquila
e me deita na cama tão dócil 
mas que me dá puta quizila
e me faz sentir turbilhões 
enquanto estou imóvel, estaqueada,
como quem foi amarrado porque quis,
por saber que tudo isso passa,
mesmo demorando zilhões de anos
mesmo atrapalhando meus planos
mesmo o relógio já marcando quatro e meia
e eu não tendo feito nada do que precisava
que dirá o que queria.



da transmutação do tudo em nada ou do nada em tudo

quanto mais ando
mais quero andar

quanto mais sei
mais quero saber

mas quanto menos quero
melhor estou

quanto menos almejo
mais surpresa eu fico
quando conheço

porque quanto menos quero
menos sei 
porque sei mais

e quanto menos
melhor

até que chegue o dia
em que nada saberei

meu revival do marinheiro

há alguns anos
aqui nessa janela
me encontrava com a lua
e perguntava a ela
que sensação era aquela

uns anos depois
na mesma janela ao luar
fumava um cigarro e sentia
meu coração afligir
por achar que ele não ia voltar mais

e agora cá estou
esperando a lua chegar
agradecendo tranquila
porque ele está mais aqui comigo
do que em qualquer outro lugar

a riqueza do vocabulário versus a falta do verbo

mais do que qualquer outra coisa
é meu apreço pelas palavras
que me faz escrever

a vontade de ter um grande léxico
de palavras inesquecíveis
é que me faz escrever

e sei que é impossível saber todas,
são muitas e muitas veredas,
então tenho que escrever
- mais

viajar cada vez mais nos signos
até chegar nas inumeráveis semânticas,
tenho que escrever

ouvindo cada vez mais fonemas
desaprendo a falar
mas sem parar
de escrever

do que não foi II

costumava tocar essa canção pensando em ti
e imaginava o dia em que poderia tocar ela para ti,
longe de tudo e todos que conhecíamos,
diferente de tudo que queríamos,
[até ali.]

mas tudo se despedaçou
 por causa de um deslize
que se transformou numa crise
tão desnecessária, ácida, definitiva
tão imatura e evasiva

não há grandes explicações.
só a aceitação de que
eu nunca tocarei essa canção para ti.

devaneio manante

queda d'água
cachoeira
curva de rio
catarata
salto

formações geomorfológicas e/ou
convergências energéticas da natureza.

as águas correm incessantes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para correrem ainda.

e as rochas estão inertes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para ficarem ainda.

mas o rio desse Salto
tem uma peculiaridade:
corre pra dentro.

e eu, forasteira,
de um lugar ainda mais interiorano
nascida sob signo de terra
me sentei nessas pedras por alguns anos.

vi muitas águas passarem
muitas pessoas passarem
muitas histórias passarem
correndo pra dentro
de mim.

das contemplações nos morros cariocas

contemplo o Rio de Janeiro
e ele me contempla também.
a começar pelo seu nome;

o rio
há de desaguar no mar
- de onde Marisa vem.
e eu rio.

e janeiro
que é mês de mar e veraneio
- meu mês inteiro.
e eu rio.

this big dream

maravilhoso,
o modo aleatório
tocar David Lynch
enquanto estou no ônibus
olhando nossa fotografia
caoticamente linda,
pensando sobre as pequenas estranhezas
que existem entre nós
em nós dois
e nos desatados nós.

me fazendo amar mais... nós.

maravilhoso.

love is the name.

curtume de saudade

quis entender;
nasci com isso no peito,
das coisas e pessoas que nunca vi.

quis mensurar;
tamanho esse desejo
pra destrambelhar as coisas assim.

quis amenizar;
procurando qualquer ensejo
pra tirar esse sentimento daqui.

mas não entendi
não mensurei
nem amenizei
- só curti.

enquanto isso cozinha aqui dentro
misturando-se aos meus outros sentimentos,

fico com as palavras
que ele mesmo
me disse dia desses:
- se isso não matar,
fica pelo menos a certeza
de um coração mais forte.

títere marisinha

eu era um bonifrate tipo Giramundo
um fantoche exótico com olhos fundos
usava vestidinho bordado azul marinho
uma fita vermelha no cabelinho

alguém falou que os cigarros são poemas para quem nunca soube o que falar

e eu concordei com veemência
pois minha fala vinha de ventriloquia
e quase ninguém me ouvia;
era a voz da minha demência.

colagem digital de palavras II

a divisão dos regimes discursivos posteriores
a certeza tão incerta dos senhores
a batalha continua franca e aberta
e uma paisagem paradisíaca e quase deserta
o visível e o invisível
o dia à toa, à toa
a função de orientar pessoas
uma forte influência para o nosso caminho material
a consciência da espiritualidade e da energia universal
a palavra pronunciada e a oportunidade perdida

- tua sanha virará só coração sem mais arranhão nem ferida

indescritível

mais de dez anos de escrita
e ainda há muita coisa não dita
como isso é possível?

da relevância

ignora a aspereza das minhas mãos.
fica com a sinceridade e a leveza
do meu coração.

memórias do rio de janeiro IV

no rio de janeiro a integração dos meios de transporte não é integrada. soltar balões é proibido mas tem vários balões no céu. é proibido fumar maconha em qualquer lugar mas em certos bares da lapa pode. é proibido fumar em terminais mas em alguns pode. e o inglês falado no metrô é carioquês também. às vezes o motorista não pára na parada solicitada, e às vezes ele não pára no ponto que tem pessoas esperando. 

no rio de janeiro é proibido dançar agarrado mas se quiser pode. 

kari oka

tem uma coisa que está além do atabaque
do surdo, do tamborim, dos motores, dos tiquetaques
dessa cidade tão cheia de sonidos.
uma coisa que está além do sotaque,
o qual estou longe achar bonito.
uma coisa que dá um outro sentido
que converge muito com a paisagem.
uma coisa que que dá um tom sustenido,
arrasta certa camaradagem
misturada com certa malandragem,
e essas duas se fundem e difundem essa coisa.
uma coisa que está além do léxico
que tem um quê de complexo
indescritível, inenarrável.
uma coisa que tento sintetizar como
visceralidade.


alvíssaras

um dia
eu quis muito, quis muito
quis voar até o mais alto
e correr até o mais longe
e entrar no mais profundo
e fazer todas as coisas

hoje eu só quero poder ir
assim, devagar

de acordo com o que minhas pernas
conseguem andar

de acordo com o tempo que meus plantios
levarem para crescer

sei que plantei boas sementes,
finalmente.

"sê paciente, sê grato."
gratidão rega as sementes que plantamos


memórias do rio de janeiro III

se tem uma expressão para eu sintetizar essa viagem, essa é 'deja vus'.

antes mesmo de chegar na cidade, entendi que eu realmente deveria conhecê-la. passando por barra mansa, aquele sentimento de que estive ali. só que quando eu era minha mãe. quando eu era minha mãe criança, morando lá, com meus vários irmãos, minha família tão unida quanto pobre. eram as mesmas cores que eu imaginei quando minha mãe me contou sobre essa época. eu quase pude me ver ali, sendo minha mãe. suspirei. dormi.

naquele trenzinho de turista, encontrei uma família pela segunda vez aqui, pois a primeira foi em algum lugar do inconsciente. já havia falado com eles. o pai, alto, tinha uma feição meio árabe, mas brasileiro. a mãe, uma negra meio clara como eu, com um turbante vermelho, um vestido lindo. e um casal de crianças bonitas, vestidas com roupas confortáveis, com aquela curiosidade infante muito viva nos olhos. eu quis carregar um deles, pois já fiz isso em algum lugar.

depois, estava lá com a mulherada bebendo em botafogo. de lá, fomos para a praça tiradentes. de repente, a gente começou a correr, para pegar um ônibus, mas era mais porque já estávamos meio bêbadas. eu corria, até que passamos por uma pracinha e eu olhei pro lado e caralho! to mesmo no rio de janeiro! dali onde parei, que perspectiva. via o cristo redentor iluminado, acima dos postes, bem no meio das construções da rua. e daí, tudo se desenrolou exatamente como num sonho que tive, há bastante tempo. fiquei parada tentando me localizar enquanto as meninas corriam. eu falava isso. caralho! to mesmo no rio de janeiro! e olhava para o cristo. tentei tirar uma foto, para mandar pra minha mãe, mas na foto aparecia só uma cruzinha branca, borrada. depois corri alcançar as meninas. exatamente como sonhei.

na praia da barra da tijuca, estava sozinha. quando eu sentei na areia, já senti que estava ali. mas até aí tudo bem, eu, cabra do mar, vivo sonhando que estou contemplando os domínios de minha mãe Iemanjá, ouvindo o que dizem os ventos de minha mãe Iansã. fiquei bastante tempo lá, numa brisa. deixei minhas coisas com um casal, entrei no mar, fiquei mais um tempo, e voltei. brinquei com a cachorra do casal, estela. o nome deles eu não sei. me levantei pra ir embora, e eis que surge um moço que eu já conhecia. só que ele era de fortaleza e morava no rio há uns 10 anos. sujeito simples, simpático, disse que mora na rocinha trabalha com vários bicos. eu desconfio de qualquer homem desconhecido, mas eu senti que conhecia ele. ele veio chamar pra fumar um baseado. a gente fumou, falamos de assuntos corriqueiros, agradecemos aquilo tudo que estava diante dos nossos olhos. e então uma sequência que eu já havia visto e ouvido: "você tá aqui faz hora né?" "eu vi você sentada ali" "vi você no mar também". daí tive um desconforto, tava me paquerando e eu não gosto. mas não foi nada escroto. falei que já estava bem chapada do beque, e ele guardou a bagana. tentei explicar que no litoral eu chapo diferente. mas, como ele morou no litoral a vida toda, não entendeu o que eu quis dizer. falou que era muito feliz ali. comprou um chá gelado,"toma, é pra você."e foi-se.

por fim, no domingo chuvoso. estava deitada com ele. tudo estava roxinho, tocava yo la tengo. tudo era sensorial, tudo era feliz. torrãzinho de açúcar mágico faz dessas. mas esse deja vu, eu vou guardar só pra mim. até que a minha memória o esqueça... ou não.

memórias do rio de janeiro II

no rio de janeiro se faz samba e amor até mais tarde. é sabido que o samba e o amor andam juntos, desde que o samba é samba é assim. e é lógico que o samba fala de tudo, mas nesse caso aqui, é de amor carioca que estamos falando.

aprendi muito sobre amor com o samba. aprendi que o amor dói mas pode ser curado. aprendi a chorar cantando. aprendi que não existe coisa mais triste que ter paz. que quem é homem de bem não trai. que o samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais. que o mundo é um moinho. que amor não é brinquedo. que o canto de ossanha é traidor. e até dança da moda eu sei.

em muitos muros da zona oeste, vemos anúncios da vovó maria conga que faz trabalhos para o amor. muitos mesmo. do outro lado, vi dezenas e mais dezenas de propagandas feiticeira e da vovó maria cabinda anunciando a mesma coisa. sei que os pretos velhos nada têm a ver com as amarrações, mas onde tem propaganda, tem demanda.

e as artes dos muros do rio também falam mais de amor. e o rio está cheio de casais de toda idade e tipo. e cheio de gente querendo se apaixonar. tão cheio que os flertes vão desde migué de gringo falso até chá gelado gentileza na praia.

e nos poucos bares que passei, já que deve haver milhares e milhares, em todos, todos sabiam cantar os sambas de amor. e todos cantavam com muita devoção. lindo de ver, de ouvir, de sentir.

no rio de janeiro fiz samba e amor até mais tarde. tive muito sono de manhã.

memórias do rio de janeiro I

quando estava chegando na cidade maravilhosa, cheguei por um lado não tão maravilhoso assim. fui arrebatada por uma emoção indefinida, acompanhada do choro na porta. aquele misto de alegria e aperto no peito que chico cantou em gente humilde. via aquele monte de moradias apinhocadas, com pixos de todo tipo, transpassadas por fiações perigosas. muita gente, muitos veículos, muita sujeira. e muitos sorrisos.

depois, andávamos a pé cortando quarteirões na curicica, que é bem mais bonita e limpa e tudo mais. bairro de gente simples também, mas com melhores condições do que os bairros que vi quando cheguei. sempre adorei nomes bonitos de ruas, boto reparo. rua isis, rua ícaro, rua da bondade, rua da consagração, que tinha um terreiro às claras. sem esconder. 

dobramos algumas quadras. alguém tocava gente humilde num teclado. alguém numa daquelas casas simples com cadeiras nas calçadas, com varanda, flores tristes e baldias. como a alegria que não tem onde encostar.

que vontade de chorar. 

colagem digital de palavras I


análise de procedimentos e elaboração de propostas de melhoria
dias de transformações importantes em seu coração
sua maneira de amar e receber amor passa por algumas mudanças
fotografia, textos literários, documentos históricos, entre outros
alguns dos conhecimentos imprescindíveis para o desempenho das atividades

fique atento ao que fala e também ao que ouve
virtude de ter os ouvidos muito sensíveis

Tu que buscas companhia 
E eu que busco quem quiser 
sujeito histórico e de conhecimento
partícipe e produtor de cultura, 
que reconhece a importância das diferenças, 
aventando possibilidade 
de conexões, 
intercâmbios e 
funcionamento em rede
poderes psíquicos,
imaginação fértil, 
versatilidade e também 
amante da liberdade

Vem que o amor 
Nao é o tempo 
Nem é o tempo 
Que o faz 


Vem que o amor 
pede paciência e atenção

Vem que o amor 
É o momento 
Em que eu me dou 
Em que te dás

um modo de manifestação da verdade 
ou de manifestação numa esfera da verdade

sem qualquer medo de correr riscos

minha maneira de estar sozinha

quando escrevo pros outros
sou mais feliz,
escrevo bem melhor do que falo.

quando escrevo sobre os outros
é poesia,
descrevo melhor pois boto reparo.

mas quando escrevo sobre mim
é só terapia,
que evita eventuais disparos.

Silêncio, logo existo

Quando a voz ecoa menos
nos dias abençoados de clima ameno,
a alma ecoa mais;
vai do caos ao cais

Executa os verbos da ordem natural:
venta e se discorre em temporal,
se dissolve em cores comestíveis,
e em devaneios perecíveis,
retira do coração todas as adagas,
e encontra a psiquê, e a indaga.

Tamanho é o dilatar
que o melhor é se deleitar;
o maior sabor é o da existência
de cada alma e sua consciência
cheira como o orvalho da hora mais fresca da manhã,
tem gosto de suco de goiaba com hortelã,
e de todas as outras coisas mais.

[Meados de 2013]

venusiana genuína

o meu corpo já foi mais bonito
mais firme, mais definido
e o meu rosto também já foi mais bonito
já teve mais cores e delineares,
mais dentes e mais sorrisos
e os meus cabelos já foram mais bonitos,
mais bem cuidados e mais coloridos...

e agora tenho marcas do meu parto e das minhas partidas
tenho marcas nos meus peitos e muitas estrias
não tive mais tempo pros meus esmaltes azuis e cinzas
não tenho mais aquela cintura fina,
não sei mais usar sapatos de salto

e, ainda assim, pretendo sim outros partos e partidas
que vão me causar mais marcas nessa vida.
pois não há nada como se olhar no espelho
e perceber sem dor o envelhecimento,
e se amar mais agora do que antes
por entender melhor agora
as coisas que são mais importantes 

lexical II

sou ruim para verbalizar as coisas,
mas, felizmente, vou bem com as palavras.

exorcizo meus fantasmas
com essa espécie de ectoplasma.
abraço todos os meus demônios
e choro meus desregulados hormônios,
traduzo os meus próprios enigmas
e curo meus próprios estigmas
com preces, traços e léxico.

as palavras
me confrontam
e me confortam.
me complementam.


livramentos

me perco nas palavras bonitas nas frases bem ditas das linhas benditas que são escritas em livros de todos os tempos logo, me perco no ...