com as mãos frias
e os pés gelados
junta, mais uma vez,
os cacos
do coração despedaçado
no solstício de inverno
e no deserto frio que é
esse atestado de solidão.
 - ela é feita para aguentar
 - ela vai entender isso sim
eu que não aguento nem as notícias da tv

presságios oníricos I

a casa velha e abandonada
com camas empoeiradas
naquele pequeno vilarejo fantasma
com a igrejinha de portas e janelas estreitas
com plantas crescendo desgrenhadas rasteiras
nos mapas inexplorados do inconsciente
anunciam a limpeza de sentimentos que tardou começar

eustátua

não sei em que momento
me fiz essa impressão que causo,
vestindo essa armadura invisível
e andando com o pé descalço.

me tratam como se eu fosse uma fortaleza,
um oráculo de pedra colossal,
um obelisco devotado monumental,
que sabe sobre tudo e todos
que lida com tudo e todos
sem criar nenhuma rachadura...
- quiçá desmorono.

não sei quando isso começou
só sei que essa impressão nunca mudou
e parece que é tarde demais pra abandonar essa armadura.
desde que acordei
já morri, já peguei estrada,
já fiquei parada olhando pro nada,
já chapei e já gozei,
já gemi e já orei,
já pedi um conselho pro baralho,
já chorei na cozinha do trabalho,
e agora, mais uma vez,
vou pensar no que fazer com tanto sentimento
e almoçar.


olho d'água

já não entendo algumas coisas 
que entendia antes
por entender agora 
coisas que antes eu não entendia

como esse manancial que brota aqui no meu peito
e escorre até a minha raiz, minha terra,
ou que talvez brote na minha raiz 
despontando aqui no peito...

o que não entendo 
é porque alguém ou algo 
tenta estancar isso o tempo todo

o que entendo
é que mesmo soterrado, impedido
esse regato sempre brota de novo

subjetividades em haikai I

o que mais gosto é quando ninguém vê:
flirter et préliminaires
au bord de la mer

o movimento das coisas que nunca mudam

as coisas sempre mudam de lugar,
de jeito, o tempo inteiro
transcorrendo, transformando
o tempo-espaço
e o sentimento escasso
em abundância e sabedoria
seja lá qual este for.
pelas mãos do Tempo Rei.

mas algumas coisas nunca vão mudar
como as pedras dos rios
que ficam sempre no mesmo lugar
e veem todas as águas de todos os tempos passar

a sensação de lar ao passar um café com fé
a gratidão, essa palavra exaurida mas verdadeira
a emoção ao ouvir Travessia num domingo ensolarado
a sensação de ter vivido mil anos a cada aniversário
a insistência no incrível não compreendido do amor
as questões sobre como a vida poderia ser melhor para todo mundo
e também a nossa culpa de não ser assim.

algumas coisas parecem que nunca vão mudar.
até que mudam.

da intensidade das coisas

os meus sonhos são pequenos
mas alcançam o meu âmago
e de quem estiver por perto

a minha passividade
vinda da energia canceriana em aspecto retrógrado
onde deveria haver força
dá uma sensação de que tudo está mais longe

mas não
eu já cheguei até aqui
e já passei por muito
e chego logo mais
pois acho que as coisas estão logo ali

é que às vezes parece
que meu coração machucado
não vai dar conta de tanto percalço
nos caminhos que ando descalço
sendo que eu mesmo escolhi
os caminhos e esse sentir

garota dissolvida

começo enganando.
como quem quer falar de uma coisa,
mas a referência é outra.

começo como alguém
que sabe o que está fazendo.
que sabe pra onde vai.
que sabe o que diz.

alguém que esconde atrás da expressão séria
uma volubilidade infinda
no coração que é tão
autossuficiente
e doente.
tal qual o da garota interrompida.

mas dissolvo e recomponho eu mesma
a minha matéria frágil, volátil,
dolorida.
mas maquiada de tal maneira,
que só algumas pessoas puderam perceber.

sei que umas mais perceberam.
mas elas não tiveram coragem de dizer.
assim como eu não tive coragem de mandar
todos os meus demônios irem embora,
mesmo querendo isso.

mas não.
abraço a cada um,
entendo eles.
até peço gentilmente para que saiam,
mas insisto pouco.
e acabo dando nome a eles.

e de repente eu entendo que
quando eu escolhi
viver o máximo
de cada um dos sentimentos que me tocam
também escolhi criar
esses pobres diabos
que podem me apunhalar pelas costas a qualquer momento
usando a minha própria mão


livramentos

me perco nas palavras bonitas
nas frases bem ditas
das linhas benditas
que são escritas
em livros de todos os tempos
logo, me perco no tempo
admirando a realidade
que só existe naquele calhamaço
e só naquele momento
que passei meus olhos por ali

depois, ficam os fragmentos
dentro da minha cabeça.
e por mais que eu esqueça
uma coisa ou outra,
eles conversam com a realidade daqui.

ler não é olhar, nem ouvir
nem assistir
mas é tamanho sentir
que por essas e outras
que sou livre
nos meus livros
pois me livro
da realidade daqui


fingidora soul

ainda que não seja poeta,
flerto desde sempre com a poesia,
olhando de soslaio para a filosofia,
invejando quando
o casamento delas acontece

ainda que não seja poeta,
que não saiba fazer trovas ou elegias,
entendo muito de nostalgias
por não evitar nunca
os sentimentos que se aproximam

ainda que tenha aprendido uma vez,
não sei escrever com métrica,
pois dispenso preceitos da estética,
mesmo que eles me seduzam
vez em quando

não sou poeta
pois tenho mais o que fazer;
roupas para lavar,
quilômetros para correr

ainda que não seja poeta
nasci com mente inquieta de poeta
um coração sincero de poeta
olhar inconformado de poeta
melancolia de poeta

Wunjo

sê paciente, sê calma
chora para adubar aos seus plantios
mas não muito,
seu Giramundo já te disse que não quer

sê perseverante, sê calma
ria para vibrar energias aos seus plantios
ainda que não muito
mas esquece um pouco os problemas se quiser

sê forte, sê calma
mira as luas para entender seus plantios
olha para os muitos
fluídos e convergências naturais que culminam nos seus plantios

who was I?
who am I?
what I want?
what I wanted?
Just need to remember

I'll stop trying to make difference
I'm not trying to make difference,
no way

I write poor things
But I don't like poor poetry
So I'm starting to remember

abriu um bar na rua de trás de casa
o novo role da cidade pra moçada
lá toca as mesmas músicas de outrora
mas eu me sinto velha de novo, fora de moda

Maria

quando te vi naquele dia
entendi que o tal Amor Maria
era tudo aquilo mesmo

tu, que viestes do outro lado do país
foi se aprumar logo onde tenho raiz
trazendo seu timbre doce
com esse seu 
sotaque pernambucano
cantando 
me cantando
e, não posso deixar de lado o clichê; encantando

tu, que olhou no fundo da minha alma
e compreendeu de primeira diversas coisas
como minha ânsia de ir além.
de andar por aí a fazer arte também.
podia ter chego antes ou depois
pois este meu coração leviano
que se apaixona feito os nativos piscianos
ainda que sozinho e descalço
já fez morada em outro abraço

testamentos I

esses dias
mergulhei no passado.
um empurrãozinho bastou,
já que sou cheia de
saudades e nostalgias.

há uns anos escrevi
o poema do se eu morresse amanhã,
dizendo que morreria tranquila e satisfeita
ainda que cheia de vontades e incertezas.

lembrei como pensava na dona Morte
e até a via como uma possível companheira,
já que vivia flertando com ela
pois tinha medo nenhum.

hoje percebi que
ainda que não me assuste,
é bem mais complicado morrer.
pois quanto mais tempo passa
mais difícil fica.

morrer compele uma série de sentires
que não são só os nossos.
impele um nó arrebentado
na rede que formamos.

então começo aqui meus testamentos
caso algo me aconteça.
caso algo me acometa
a luz de estrelas e cometas.

inda sujeita à roda da fortuna
essa cabra do mar de nascença
que tem o louco como arcano
agora, no sol escorpiano
tranquila, tenta uma transmutação

tristeza, minha tristeza
tamanha a minha falta de destreza
para comigo mesma...

queria que fosse mais simples
a ponto de poder te deixar 
esse recado ingênuo

você sabe quanto me é importante
e até mesmo querida

mas eu preciso de espaço.
do meu espaço.

lacrimosa

já não quero mais vir escrever sobre a tristeza
mas cá estou novamente.

sei que sempre me dei bem com ela,
mas me intoxica;
ela não me deixa quase nunca.

me pega desprevenida, 
nos piores ou melhores momentos.
depois de uma viagem incrível
de um reencontro com a família
de visitar amigos amados
de conhecer lugares novos
pessoas singulares
ou mesmo depois do almoço,
depois do maço,
ou do próprio amor.

tento encontrar 
de onde ela vem dessa vez
já que veio com tanta força
ainda que não seja muito difícil me deixar triste,
ainda que pareça que eu não fique triste nunca

tento entender o que preciso aprender dessa vez
mas ela vem confusa, 
com isso muito implícito.

me parece até uma estranha.

such a sad affair

I like to use songs
to describe my feelings
like to use their meanings
to speak the words I can't

looping

I am this sadness too
I am this loneliness too
I used to be afraid of this feelings
I used to be afraid of myself
so I started to write 
making this a kind of a tool
to cure my wounds and pains
to make me fool 
again
like... when I was five
(thank you for that, letrux) 

so I use cheap words, phrases, rhymes
cause my dreams are cheap too
and even so 
my dreams
are so far away from me
so hard to find
and this makes me sad 
makes me lonely
makes me feel scared of this feelings again

tamanha vontade 
de fazer tantas coisas
proporcionalmente igual 
ao tamanho dessa inércia
que me abraça tranquila
e me deita na cama tão dócil 
mas que me dá puta quizila
e me faz sentir turbilhões 
enquanto estou imóvel, estaqueada,
como quem foi amarrado porque quis,
por saber que tudo isso passa,
mesmo demorando zilhões de anos
mesmo atrapalhando meus planos
mesmo o relógio já marcando quatro e meia
e eu não tendo feito nada do que precisava
que dirá o que queria.



jornada

quanto mais ando
mais quero andar

quanto mais sei
mais quero saber

mas quanto menos quero
melhor estou

quanto menos almejo
mais surpresa eu fico
quando conheço

porque quanto menos quero
menos sei 
porque sei mais

e quanto menos
melhor

até que chegue o dia
em que nada saberei

meu revival do marinheiro

há alguns anos
aqui nessa janela
me encontrava com a lua
e perguntava a ela
que sensação era aquela

uns anos depois
na mesma janela ao luar
fumava um cigarro e sentia
meu coração afligir
por achar que ele não ia voltar mais

e agora cá estou
esperando a lua chegar
agradecendo tranquila
porque ele está mais aqui comigo
do que em qualquer outro lugar

a riqueza do vocabulário versus a falta do verbo

mais do que qualquer outra coisa
é meu apreço pelas palavras
que me faz escrever

a vontade de ter um grande léxico
de palavras inesquecíveis
é que me faz escrever

e sei que é impossível saber todas,
são muitas e muitas veredas,
então tenho que escrever
- mais

viajar cada vez mais nos signos
até chegar nas inumeráveis semânticas,
tenho que escrever

ouvindo cada vez mais fonemas
desaprendo a falar
mas sem parar
de escrever

do que não foi II

costumava tocar essa canção pensando em ti
e imaginava o dia em que poderia tocar ela para ti,
longe de tudo e todos que conhecíamos,
diferente de tudo que queríamos,
[até ali.]

mas tudo se despedaçou
 por causa de um deslize
que se transformou numa crise
tão desnecessária, ácida, definitiva
tão imatura e evasiva

não há grandes explicações.
só a aceitação de que
eu nunca tocarei essa canção para ti.

devaneio manante

queda d'água
cachoeira
curva de rio
catarata
salto

formações geomorfológicas e/ou
convergências energéticas da natureza.

as águas correm incessantes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para correrem ainda.

e as rochas estão inertes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para ficarem ainda.

mas o rio desse Salto
tem uma peculiaridade:
corre pra dentro.

e eu, forasteira,
de um lugar ainda mais interiorano
nascida sob signo de terra
me sentei nessas pedras por alguns anos.

vi muitas águas passarem
muitas pessoas passarem
muitas histórias passarem
correndo pra dentro
de mim.

das contemplações nos morros cariocas

contemplo o Rio de Janeiro
e ele me contempla também.
a começar pelo seu nome;

o rio
há de desaguar no mar
- de onde Marisa vem.
e eu rio.

e janeiro
que é mês de mar e veraneio
- meu mês inteiro.
e eu rio.

this big dream

maravilhoso,
o modo aleatório
tocar David Lynch
enquanto estou no ônibus
olhando nossa fotografia
caoticamente linda,
pensando sobre as pequenas estranhezas
que existem entre nós
em nós dois
e nos desatados nós.

me fazendo amar mais... nós.

maravilhoso.

love is the name.

curtume de saudade

quis entender;
nasci com isso no peito,
das coisas e pessoas que nunca vi.

quis mensurar;
tamanho esse desejo
pra destrambelhar as coisas assim.

quis amenizar;
procurando qualquer ensejo
pra tirar esse sentimento daqui.

mas não entendi
não mensurei
nem amenizei
- só curti.

enquanto isso cozinha aqui dentro
misturando-se aos meus outros sentimentos,

fico com as palavras
que ele mesmo
me disse dia desses:
- se isso não matar,
fica pelo menos a certeza
de um coração mais forte.

títere marisinha

eu era um bonifrate tipo Giramundo
um fantoche exótico com olhos fundos
usava vestidinho bordado azul marinho
uma fita vermelha no cabelinho

alguém falou que os cigarros são poemas para quem nunca soube o que falar

e eu concordei com veemência
pois minha fala vinha de ventriloquia
e quase ninguém me ouvia;
era a voz da minha demência.

colagem digital de palavras II

a divisão dos regimes discursivos posteriores
a certeza tão incerta dos senhores
a batalha continua franca e aberta
e uma paisagem paradisíaca e quase deserta
o visível e o invisível
o dia à toa, à toa
a função de orientar pessoas
uma forte influência para o nosso caminho material
a consciência da espiritualidade e da energia universal
a palavra pronunciada e a oportunidade perdida

- tua sanha virará só coração sem mais arranhão nem ferida

indescritível

mais de dez anos de escrita
e ainda há muita coisa não dita
como isso é possível?

da relevância

ignora a aspereza das minhas mãos.
fica com a sinceridade e a leveza
do meu coração.

memórias do rio de janeiro IV

no rio de janeiro a integração dos meios de transporte não é integrada. soltar balões é proibido mas tem vários balões no céu. é proibido fumar maconha em qualquer lugar mas em certos bares da lapa pode. é proibido fumar em terminais mas em alguns pode. e o inglês falado no metrô é carioquês também. às vezes o motorista não pára na parada solicitada, e às vezes ele não pára no ponto que tem pessoas esperando. 

no rio de janeiro é proibido dançar agarrado mas se quiser pode. 

kari oka

tem uma coisa que está além do atabaque
do surdo, do tamborim, dos motores, dos tiquetaques
dessa cidade tão cheia de sonidos.
uma coisa que está além do sotaque,
o qual estou longe achar bonito.
uma coisa que dá um outro sentido
que converge muito com a paisagem.
uma coisa que que dá um tom sustenido,
arrasta certa camaradagem
misturada com certa malandragem,
e essas duas se fundem e difundem essa coisa.
uma coisa que está além do léxico
que tem um quê de complexo
indescritível, inenarrável.
uma coisa que tento sintetizar como
visceralidade.


alvíssaras

um dia
eu quis muito, quis muito
quis voar até o mais alto
e correr até o mais longe
e entrar no mais profundo
e fazer todas as coisas

hoje eu só quero poder ir
assim, devagar

de acordo com o que minhas pernas
conseguem andar

de acordo com o tempo que meus plantios
levarem para crescer

sei que plantei boas sementes,
finalmente.

"sê paciente, sê grato."
gratidão rega as sementes que plantamos


memórias do rio de janeiro III

se tem uma expressão para eu sintetizar essa viagem, essa é 'deja vus'.

antes mesmo de chegar na cidade, entendi que eu realmente deveria conhecê-la. passando por barra mansa, aquele sentimento de que estive ali. só que quando eu era minha mãe. quando eu era minha mãe criança, morando lá, com meus vários irmãos, minha família tão unida quanto pobre. eram as mesmas cores que eu imaginei quando minha mãe me contou sobre essa época. eu quase pude me ver ali, sendo minha mãe. suspirei. dormi.

naquele trenzinho de turista, encontrei uma família pela segunda vez aqui, pois a primeira foi em algum lugar do inconsciente. já havia falado com eles. o pai, alto, tinha uma feição meio árabe, mas brasileiro. a mãe, uma negra meio clara como eu, com um turbante vermelho, um vestido lindo. e um casal de crianças bonitas, vestidas com roupas confortáveis, com aquela curiosidade infante muito viva nos olhos. eu quis carregar um deles, pois já fiz isso em algum lugar.

depois, estava lá com a mulherada bebendo em botafogo. de lá, fomos para a praça tiradentes. de repente, a gente começou a correr, para pegar um ônibus, mas era mais porque já estávamos meio bêbadas. eu corria, até que passamos por uma pracinha e eu olhei pro lado e caralho! to mesmo no rio de janeiro! dali onde parei, que perspectiva. via o cristo redentor iluminado, acima dos postes, bem no meio das construções da rua. e daí, tudo se desenrolou exatamente como num sonho que tive, há bastante tempo. fiquei parada tentando me localizar enquanto as meninas corriam. eu falava isso. caralho! to mesmo no rio de janeiro! e olhava para o cristo. tentei tirar uma foto, para mandar pra minha mãe, mas na foto aparecia só uma cruzinha branca, borrada. depois corri alcançar as meninas. exatamente como sonhei.

na praia da barra da tijuca, estava sozinha. quando eu sentei na areia, já senti que estava ali. mas até aí tudo bem, eu, cabra do mar, vivo sonhando que estou contemplando os domínios de minha mãe Iemanjá, ouvindo o que dizem os ventos de minha mãe Iansã. fiquei bastante tempo lá, numa brisa. deixei minhas coisas com um casal, entrei no mar, fiquei mais um tempo, e voltei. brinquei com a cachorra do casal, estela. o nome deles eu não sei. me levantei pra ir embora, e eis que surge um moço que eu já conhecia. só que ele era de fortaleza e morava no rio há uns 10 anos. sujeito simples, simpático, disse que mora na rocinha trabalha com vários bicos. eu desconfio de qualquer homem desconhecido, mas eu senti que conhecia ele. ele veio chamar pra fumar um baseado. a gente fumou, falamos de assuntos corriqueiros, agradecemos aquilo tudo que estava diante dos nossos olhos. e então uma sequência que eu já havia visto e ouvido: "você tá aqui faz hora né?" "eu vi você sentada ali" "vi você no mar também". daí tive um desconforto, tava me paquerando e eu não gosto. mas não foi nada escroto. falei que já estava bem chapada do beque, e ele guardou a bagana. tentei explicar que no litoral eu chapo diferente. mas, como ele morou no litoral a vida toda, não entendeu o que eu quis dizer. falou que era muito feliz ali. comprou um chá gelado,"toma, é pra você."e foi-se.

por fim, no domingo chuvoso. estava deitada com ele. tudo estava roxinho, tocava yo la tengo. tudo era sensorial, tudo era feliz. torrãzinho de açúcar mágico faz dessas. mas esse deja vu, eu vou guardar só pra mim. até que a minha memória o esqueça... ou não.

com as mãos frias e os pés gelados junta, mais uma vez, os cacos do coração despedaçado no solstício de inverno e no deserto frio que ...