a riqueza do vocabulário versus a falta do verbo

mais do que qualquer outra coisa
é meu apreço pelas palavras
que me faz escrever

a vontade de ter um grande léxico
de palavras inesquecíveis
é que me faz escrever

e sei que é impossível saber todas,
são muitas e muitas veredas,
então tenho que escrever
- mais

viajar cada vez mais nos signos
até chegar nas inumeráveis semânticas,
tenho que escrever

ouvindo cada vez mais fonemas
desaprendo a falar
mas sem parar
de escrever

do que não foi II

costumava tocar essa canção pensando em ti
e imaginava o dia em que poderia tocar ela para ti,
longe de tudo e todos que conhecíamos,
diferente de tudo que queríamos,
[até ali.]

mas tudo se despedaçou
 por causa de um deslize
que se transformou numa crise
tão desnecessária, ácida, definitiva
tão imatura e evasiva

não há grandes explicações,
só a aceitação
de que eu nunca
tocarei essa canção
para ti.

devaneio manante

queda d'água
cachoeira
curva de rio
catarata
salto

formações geomorfológicas e/ou
convergências energéticas da natureza.

as águas correm incessantes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para correrem ainda.

e as rochas estão inertes
o tempo todo, há muito tempo
e há muito para ficarem ainda.

mas o rio desse Salto
tem uma peculiaridade:
corre pra dentro.

e eu, forasteira,
de um lugar ainda mais interiorano
nascida sob signo de terra
me sentei nessas pedras por alguns anos.

vi muitas águas passarem
muitas pessoas passarem
muitas histórias passarem
correndo pra dentro
de mim.

das contemplações nos morros cariocas

contemplo o Rio de Janeiro
e ele me contempla também.
a começar pelo seu nome;

o rio
há de desaguar no mar
- de onde Marisa vem.
e eu rio.

e janeiro
que é mês de mar e veraneio
- meu mês inteiro.
e eu rio.

this big dream

maravilhoso,
o modo aleatório
tocar David Lynch
enquanto estou no ônibus
olhando nossa fotografia
caoticamente linda,
pensando sobre as pequenas estranhezas
que existem entre nós
em nós dois
e nos desatados nós.

me fazendo amar mais... nós.

maravilhoso.

love is the name.

curtume de saudade

quis entender;
nasci com isso no peito,
das coisas e pessoas que nunca vi.

quis mensurar;
tamanho esse desejo
pra destrambelhar as coisas assim.

quis amenizar;
procurando qualquer ensejo
pra tirar esse sentimento daqui.

mas não entendi
não mensurei
nem amenizei
- só curti.

enquanto isso cozinha aqui dentro
misturando-se aos meus outros sentimentos,

fico com as palavras
que ele mesmo
me disse dia desses:
- se isso não matar,
fica pelo menos a certeza
de um coração mais forte.

colagem digital de palavras II

a divisão dos regimes discursivos posteriores
a certeza tão incerta dos senhores
a batalha continua franca e aberta
e uma paisagem paradisíaca e quase deserta
o visível e o invisível
o dia à toa, à toa
a função de orientar pessoas
uma forte influência para o nosso caminho material
a consciência da espiritualidade e da energia universal
a palavra pronunciada e a oportunidade perdida

- tua sanha virará só coração sem mais arranhão nem ferida

indescritível

mais de dez anos de escrita
e ainda há muita coisa não dita
como isso é possível?

da relevância

ignora a aspereza das minhas mãos.
fica com a sinceridade e a leveza
do meu coração.

memórias do rio de janeiro IV

no rio de janeiro a integração dos meios de transporte não é integrada. soltar balões é proibido mas tem vários balões no céu. é proibido fumar maconha em qualquer lugar mas em certos bares da lapa pode. é proibido fumar em terminais mas em alguns pode. e o inglês falado no metrô é carioquês também. às vezes o motorista não pára na parada solicitada, e às vezes ele não pára no ponto que tem pessoas esperando. 

no rio de janeiro é proibido dançar agarrado mas se quiser pode. 

kari oka

tem uma coisa que está além do atabaque
do surdo, do tamborim, dos motores, dos tiquetaques
dessa cidade tão cheia de sonidos.
uma coisa que está além do sotaque,
o qual estou longe achar bonito.
uma coisa que dá um outro sentido
que converge muito com a paisagem.
uma coisa que que dá um tom sustenido,
arrasta certa camaradagem
misturada com certa malandragem,
e essas duas se fundem e difundem essa coisa.
uma coisa que está além do léxico
que tem um quê de complexo
indescritível, inenarrável.
uma coisa que tento sintetizar como
visceralidade.


alvíssaras

um dia
eu quis muito, quis muito
quis voar até o mais alto
e correr até o mais longe
e entrar no mais profundo
e fazer todas as coisas

hoje eu só quero poder ir
assim, devagar
de acordo com o que
minhas pernas alcançam andar
de acordo com o tempo
que meus plantios levarem para crescer

sei que plantei boas sementes,
finalmente.

"sê paciente, sê grato."
gratidão rega as sementes que plantamos


memórias do rio de janeiro III

se tem uma expressão para eu sintetizar essa viagem, essa é 'deja vus'.

antes mesmo de chegar na cidade, entendi que eu realmente deveria conhecê-la. passando por barra mansa, aquele sentimento de que estive ali. só que quando eu era minha mãe. quando eu era minha mãe criança, morando lá, com meus vários irmãos, minha família tão unida quanto pobre. eram as mesmas cores que eu imaginei quando minha mãe me contou sobre essa época. eu quase pude me ver ali, sendo minha mãe. suspirei. dormi.

naquele trenzinho de turista, encontrei uma família pela segunda vez aqui, pois a primeira foi em algum lugar do inconsciente. já havia falado com eles. o pai, alto, tinha uma feição meio árabe, mas brasileiro. a mãe, uma negra meio clara como eu, com um turbante vermelho, um vestido lindo. e um casal de crianças bonitas, vestidas com roupas confortáveis, com aquela curiosidade infante muito viva nos olhos. eu quis carregar um deles, pois já fiz isso em algum lugar.

depois, estava lá com a mulherada bebendo em botafogo. de lá, fomos para a praça tiradentes. de repente, a gente começou a correr, para pegar um ônibus, mas era mais porque já estávamos meio bêbadas. eu corria, até que passamos por uma pracinha e eu olhei pro lado e caralho! to mesmo no rio de janeiro! dali onde parei, que perspectiva. via o cristo redentor iluminado, acima dos postes, bem no meio das construções da rua. e daí, tudo se desenrolou exatamente como num sonho que tive, há bastante tempo. fiquei parada tentando me localizar enquanto as meninas corriam. eu falava isso. caralho! to mesmo no rio de janeiro! e olhava para o cristo. tentei tirar uma foto, para mandar pra minha mãe, mas na foto aparecia só uma cruzinha branca, borrada. depois corri alcançar as meninas. exatamente como sonhei.

na praia da barra da tijuca, estava sozinha. quando eu sentei na areia, já senti que estava ali. mas até aí tudo bem, eu, cabra do mar, vivo sonhando que estou contemplando os domínios de minha mãe Iemanjá, ouvindo o que dizem os ventos de minha mãe Iansã. fiquei bastante tempo lá, numa brisa. deixei minhas coisas com um casal, entrei no mar, fiquei mais um tempo, e voltei. brinquei com a cachorra do casal, estela. o nome deles eu não sei. me levantei pra ir embora, e eis que surge um moço que eu já conhecia. só que ele era de fortaleza e morava no rio há uns 10 anos. sujeito simples, simpático, disse que mora na rocinha trabalha com vários bicos. eu desconfio de qualquer homem desconhecido, mas eu senti que conhecia ele. ele veio chamar pra fumar um baseado. a gente fumou, falamos de assuntos corriqueiros, agradecemos aquilo tudo que estava diante dos nossos olhos. e então uma sequência que eu já havia visto e ouvido: "você tá aqui faz hora né?" "eu vi você sentada ali" "vi você no mar também". daí tive um desconforto, tava me paquerando e eu não gosto. mas não foi nada escroto. falei que já estava bem chapada do beque, e ele guardou a bagana. tentei explicar que no litoral eu chapo diferente. mas, como ele morou no litoral a vida toda, não entendeu o que eu quis dizer. falou que era muito feliz ali. comprou um chá gelado,"toma, é pra você."e foi-se.

por fim, no domingo chuvoso. estava deitada com ele. tudo estava roxinho, tocava yo la tengo. tudo era sensorial, tudo era feliz. torrãzinho de açúcar mágico faz dessas. mas esse deja vu, eu vou guardar só pra mim. até que a minha memória o esqueça... ou não.

memórias do rio de janeiro II

no rio de janeiro se faz samba e amor até mais tarde. é sabido que o samba e o amor andam juntos, desde que o samba é samba é assim. e é lógico que o samba fala de tudo, mas nesse caso aqui, é de amor carioca que estamos falando.

aprendi muito sobre amor com o samba. aprendi que o amor dói mas pode ser curado. aprendi a chorar cantando. aprendi que não existe coisa mais triste que ter paz. que quem é homem de bem não trai. que o samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais. que o mundo é um moinho. que amor não é brinquedo. que o canto de ossanha é traidor. e até dança da moda eu sei.

em muitos muros da zona oeste, vemos anúncios da vovó maria conga que faz trabalhos para o amor. muitos mesmo. do outro lado, vi dezenas e mais dezenas de propagandas feiticeira e da vovó maria cabinda anunciando a mesma coisa. sei que os pretos velhos nada têm a ver com as amarrações, mas onde tem propaganda, tem demanda.

e as artes dos muros do rio também falam mais de amor. e o rio está cheio de casais de toda idade e tipo. e cheio de gente querendo se apaixonar. tão cheio que os flertes vão desde migué de gringo falso até chá gelado gentileza na praia.

e nos poucos bares que passei, já que deve haver milhares e milhares, em todos, todos sabiam cantar os sambas de amor. e todos cantavam com muita devoção. lindo de ver, de ouvir, de sentir.

no rio de janeiro fiz samba e amor até mais tarde. tive muito sono de manhã.

memórias do rio de janeiro I

quando estava chegando na cidade maravilhosa, cheguei por um lado não tão maravilhoso assim. fui arrebatada por uma emoção indefinida, acompanhada do choro na porta. aquele misto de alegria e aperto no peito que chico cantou em gente humilde. via aquele monte de moradias apinhocadas, com pixos de todo tipo, transpassadas por fiações perigosas. muita gente, muitos veículos, muita sujeira. e muitos sorrisos.

depois, andávamos a pé cortando quarteirões na curicica, que é bem mais bonita e limpa e tudo mais. bairro de gente simples também, mas com melhores condições do que os bairros que vi quando cheguei. sempre adorei nomes bonitos de ruas, boto reparo. rua isis, rua ícaro, rua da bondade, rua da consagração, que tinha um terreiro às claras. sem esconder. 

dobramos algumas quadras. alguém tocava gente humilde num teclado. alguém numa daquelas casas simples com cadeiras nas calçadas, com varanda, flores tristes e baldias. como a alegria que não tem onde encostar.

que vontade de chorar. 

colagem digital de palavras I


análise de procedimentos e elaboração de propostas de melhoria
dias de transformações importantes em seu coração
sua maneira de amar e receber amor passa por algumas mudanças
fotografia, textos literários, documentos históricos, entre outros
alguns dos conhecimentos imprescindíveis para o desempenho das atividades

fique atento ao que fala e também ao que ouve
virtude de ter os ouvidos muito sensíveis

Tu que buscas companhia 
E eu que busco quem quiser 
sujeito histórico e de conhecimento
partícipe e produtor de cultura, 
que reconhece a importância das diferenças, 
aventando possibilidade 
de conexões, 
intercâmbios e 
funcionamento em rede
poderes psíquicos,
imaginação fértil, 
versatilidade e também 
amante da liberdade

Vem que o amor 
Nao é o tempo 
Nem é o tempo 
Que o faz 


Vem que o amor 
pede paciência e atenção

Vem que o amor 
É o momento 
Em que eu me dou 
Em que te dás

um modo de manifestação da verdade 
ou de manifestação numa esfera da verdade

sem qualquer medo de correr riscos

minha maneira de estar sozinha

quando escrevo pros outros
sou mais feliz,
escrevo bem melhor do que falo.

quando escrevo sobre os outros
é poesia,
descrevo melhor pois boto reparo.

mas quando escrevo sobre mim
é só terapia,
que evita eventuais disparos.

Silêncio, logo existo

Quando a voz ecoa menos
nos dias abençoados de clima ameno,
a alma ecoa mais;
vai do caos ao cais

Executa os verbos da ordem natural:
venta e se discorre em temporal,
se dissolve em cores comestíveis,
e em devaneios perecíveis,
retira do coração todas as adagas,
e encontra a psiquê, e a indaga.

Tamanho é o dilatar
que o melhor é se deleitar;
o maior sabor é o da existência
de cada alma e sua consciência
cheira como o orvalho da hora mais fresca da manhã,
tem gosto de suco de goiaba com hortelã,
e de todas as outras coisas mais.

[Meados de 2013]

venusiana genuína

o meu corpo já foi mais bonito
mais firme, mais definido
e o meu rosto também já foi mais bonito
já teve mais cores e delineares,
mais dentes e mais sorrisos
e os meus cabelos já foram mais bonitos,
mais bem cuidados e mais coloridos...

e agora tenho marcas do meu parto e das minhas partidas
tenho marcas nos meus peitos e muitas estrias
não tive mais tempo pros meus esmaltes azuis e cinzas
não tenho mais aquela cintura fina,
não sei mais usar sapatos de salto

e, ainda assim, pretendo sim outros partos e partidas
que vão me causar mais marcas nessa vida.
pois não há nada como se olhar no espelho
e perceber sem dor o envelhecimento,
e se amar mais agora do que antes
por entender melhor agora
as coisas que são mais importantes 

lexical II

sou ruim para verbalizar as coisas,
mas, felizmente, vou bem com as palavras.

exorcizo meus fantasmas
com essa espécie de ectoplasma.
abraço todos os meus demônios
e choro meus desregulados hormônios,
traduzo os meus próprios enigmas
e curo meus próprios estigmas
com preces, traços e léxico.

as palavras
me confrontam
e me confortam.
me complementam.


Eros em Sagitário

quero ir embora
quero dar o fora
e quero que você venha comigo

se eu parar por aqui é plágio
então vou esboçar um adágio
pra expressar um pouco mais
desse Eros em Sagitário

começo em Sol,
para que a gente possa colecionar
milhares de nasceres e pores
de todas as cores

vou dedilhar diversos acordes
pra que você nunca acorde
em tédio,
no nosso Lar menor.

vou criar diversas melodias,
teorias, filosofias,
e sortilégios,
no nosso Lar menor.

um Lar menor porque
nossa verdadeira casa
é o mundo inteiro.
Do céu inteiro, Do mar inteiro;
aonde for o alvo desse flecheiro,
é Lá.
Escorrego,
mas não caio,
não me entrego
não me desespero
                       pelo menos não sempre

por quê sonho demais?
por quê escorrego,
por que enxergo
violeta lilás púrpura fúcsia
vinho berinjela uva crepúsculo
degradé, nuances, gradientes
ao invés de
roxo?
qual a utilidade
a finalidade
vou dar em quê
aonde
ou pra quem?
pra que tantas ideias?
por que essa sinestesia
por que maresia
por que ventania
por que preguiça de acento
por que assento da janela esquerda
por que licença poética
licença patética
ser normal parece ser tão menos complexo
              o que será que é ser normal, não?

ser anormal nunca quis dizer melhor
não é privilégio nem exclusividade
então veja bem onde se enfia. 
se quer mesmo ser a pessoa
que não escuta suas favoritas no rádio
que está sempre sozinha no pátio
que se mete em buracos negros inexistentesseduzida pelas estrelas incandescentes
se enchendo de porque, porquê, por quê, por quetendo muito trabalho para diferenciá-los
como tenho para tantas coisas da vida.

[meados de junho de 2011]

preito a Caieiro

quando venta
parece que a chuva aumenta.
esta tarde a trovoada caiu
esta noite a minha calma sumiu

Alberto, eu também quis ser simples,
quis ser humilde e ingênua
mas fico nessas cenas
não programadas, obscenas

assim como você
quis pensamentos alegres
e contentes
não tristes e contentes como estes
mas você me mostrou que essa tristeza
é natural e justa

eu ainda quero ser simples,
quero orar a Santa Bárbara,
quero não desejar nada
e silenciar os pensamentos
torná-los alegres e contentes
mas inevitavelmente ficam tristes
e contentes

eu desobedeci a Deus
pois sempre penso Nele
espero que Ele me deixe
ser simples algum dia






Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

Caieiro em O Guardador de Rebanhos

solitude

havia dias que fumava tanta maconha
mas tanta maconha 


que ficava reproduzindo os quadros do Edward Hopper
interpretando os quadros do Edward Hopper
sendo um quadro vivo do Edward Hopper
não sabia que poderia existir
tantos sentimentos diferentes
improváveis, infinitos.
achava que conhecia tudo,
que tudo havia sentido.

não evito o que sinto.
o que sinto, deixo germinar.
alguns não vingam,
mas outros crescem, florescem.
e desses, alguns morrem depois.
mas alguns outros, poucos, poucos,
serão árvores centenárias.

mais uma empírica

quando a água bate no meu peito
me dá um sublime desespero
por tamanha harmonia com o Universo,
tamanha familiaridade.

depois me dá súbito aperto
e uma vontade de me entregar para a correnteza,
pois parece minha essa natureza.

porque às vezes estar em pé não basta,
às vezes dar pé não basta.
e são tantas braçadas
tantos mergulhos
pedras escorregadias
peixes ornamentais
peixes carnívoros
sapos e botos
fendas estreitas
quedas e transbordamentos

parece que não vou dar conta.
me entrego, me afogo.
pois eu mesma me salvo.

e pulo de novo,
de ponta.

eremita no mar

nunca quis tomar nada.
nem remédio, nem juízo.
nem deu aviso prévio
e se deu o direito de exílio.

entre copos de ácido ascórbico
e comprimidos de betacaroteno,
tomados a fim de equivaler o receituário especial,

tinha um astrolábio, um telescópio,
uma caneca de chá para as tosses de sereno,
um incensário e um prato cheio de cristal.

nodo norte em sagitário

sentava no banco da praça no horário de almoço.
ou então no banco da praça na noite com frio até o osso.
mas eis que a madrugada responde: se está aqui para estar lá.

dos sofrimentos por antecedência


será que seria em vão
o vão pensar sobre
num vão de porta...
ai ai ai.
o que vão pensar?

eargasm

essa canção é do tipo que
não descrevo
fico emudecida,
reprimidamente possuída
por acordes
harmônicos
concordes
diatônicos

do tipo que me dá vontade
de sentar e morrer
um pouquinho
e devagar
e divagar
e entrar em transe
e transar

do tipo que acelera os minutos
na minha psiquê
demasiadamente clichê
acende o isqueiro
sopra o veleiro
e abre os olhos fechando
e fecha os olhos abrindo
e sentindo
e fingindo
que esteve lá na hora da composição

eu vejo sua inquietação

há tanto barulho em seus olhos

olhar tão colorido que chega ser branco
um olho para um demônio, o outro para um anjo

barulho nos teus olhos estrábicos
e lágrimas ocultas nos seus dizeres monossilábicos

barulho em seus olhos e falta completude
ânsia de respostas amiúde
e juventude

caiu


a presidente
os índices de emprego
o Produto Interno Bruto
a internet
a energia
acerola da árvore
a expectativa

e os ombros

aprende-se a conviver
com a Insônia
ela atrapalha o dia,
mas depois de um certo tempo,
ela vira amiga chegada, a Sônia.
pode ser depois.
mas prefiro agora,
pois espero há horas
semanas meses anos
essa súbita mudança de planos

enfiar os pés na terra castanha
e deixar ali todas as flechas que estão nas entranhas
fazendo desse pequeno momento uma conexão,
uma singela oração

waldosia

não há nada que possa expressar
a falta de lógica em te procurar
em todos os rostos dessa multidão
sabendo que você não está.

não há nada que possa expressar
o que sinto quando tenho
essa sensação sinestésica
- sempre inesperada -
de sentir o seu cheiro
e você não estar.

a riqueza do vocabulário versus a falta do verbo

mais do que qualquer outra coisa é meu apreço pelas palavras que me faz escrever a vontade de ter um grande léxico de palavras inesquec...